sábado, setembro 04, 2010

sociedade secretas 3

Sociedades secretas: segredo é poder


Sociedades secretas sempre existiram, desde o passado mais remoto. E continuam por aí: no Congresso, na igreja ou na mesquita, na direção de grandes empresas, no crime organizado... Elas estão em toda parte.

por Texto Valmir Júnior e Mauricio Manuel

Em setembro de 2008, 3 atentados à bomba reivindicados pelo grupo separatista Pátria Basca e Liberdade (ETA) deixaram 1 policial morto e pelo menos 11 feridos no norte da Espanha. Eis aqui um exemplo de como uma sociedade secreta, quando resolve sair das sombras, é capaz de interferir na vida de pessoas comuns. Quer outro? Voltemos, então, um pouco mais no passado, até o início do século 20. Na Alemanha das décadas de 1910 a 1920, um bando de doidos varridos decidiu fundar uma sociedade chamada Thule. Para muitos historiadores, ela pode ser considerada a precursora do nazismo, que levaria os alemães a escrever uma das páginas mais vergonhosas da história da humanidade.



Se continuarmos no túnel do tempo, encontraremos mais uma infinidade de sociedades secretas. Durante as cruzadas, na Idade Média, lá estavam os templários. Bem antes deles, na Roma antiga, seitas dionisíacas já se reuniam clandestinamente para adorar o deus Baco – com esbórnias que não tardariam a ficar conhecidas como bacanais. Na Mesopotâmia, apenas sacerdotes eram admitidos no interior dos templos, durante reuniões em que o destino de uma civilização inteira poderia ser traçado. E mais ou menos a mesma coisa acontecia no Egito dos faraós – considerados líderes divinos, eles eram iniciados nos mistérios do deus Osíris com uma cerimônia privada assim que assumiam o trono.



Moral dessa viagem de volta ao passado: sociedades secretas acompanham a história do homem, talvez desde que ele inventou a civilização. Como os integrantes dessas organizações freqüentemente são poderosos, no sentido político, militar ou econômico do termo, é natural que muitos desses grupos tenham se envolvido – e até protagonizado – momentos decisivos da humanidade. A maçonaria, por exemplo: ela esteve envolvida até o pescoço com a independência dos EUA (1766), do Brasil (1822) e de mais um punhado de países do continente americano.



PARA TODOS



Sociedades secretas existem muitas, sempre existiram. E são as mais variadas também. Tem organização política, religiosa, científica, filosófica, mística, filantrópica, satânica... A lista vai embora, incluindo até grupos terroristas. Ora bolas, por que não classificá-los como sociedade secreta? Pense na Al Qaeda, de Osama bin Laden, por exemplo. Ninguém sabe direito quem são seus integrantes. Um deles pode estar sentado ao seu lado neste momento e você nem desconfia. O mesmo raciocínio vale para o crime organizado. Como não chamar de secreta uma máfia italiana ou japonesa? Elas são clandestinas, mantêm tradições e rituais misteriosos, contam com seus próprios códigos de honra e ainda punem com a morte o integrante que se atreve a revelar seus bastidores.



Cabe quase de tudo no balaio das sociedades secretas: do Opus Dei, a organização religiosa que até outro dia era dirigida por um santo (são Josemaría Escrivá), ao “Clube do Fogo do Inferno” (Hell Fire Club), um grupo do século 18 dedicado à magia negra; de Hugo Chávez, presidente da Venezuela e integrante da maçonaria, a George W. Bush, duas vezes presidente dos EUA e membro da “Crânio e Ossos” (Skull and Bones).



Como tudo que é secreto faz nossa imaginação trabalhar loucamente, teorias conspiratórias são tão variadas quanto as próprias sociedades secretas. Muita gente acredita que essas organizações, sejam elas quais forem, não fazem outra coisa além de planejar o domínio do mundo. Há quem enxergue conspiração até no sobe-e-desce das bolsas ou na crise sistêmica que ameaça paralisar a economia mundial. Boa parte do que se diz é bobagem. Mas nem tudo. Há evidências claríssimas do poder que certas sociedades secretas foram capazes de exercer no passado – e continuam exercendo até hoje. Elas estão por aí, no Congresso, na igreja ou na mesquita, na direção de grandes empresas multinacionais, no submundo do crime organizado... Estão por toda parte.







Para saber mais

• Sociedades Secretas



Vários autores, Larousse, 2008.





Protagonistas da história

Irmandades secretas nem sempre são grupos voltados apenas para dentro deles mesmos. Algumas delas estão por trás de acontecimentos que alteraram o destino da humanidade.



EXPANSÃO DA IGREJA CATÓLICA



Quando: Século 16



Quem: Companhia de Jesus



Muito antes do Opus Dei, outro grupo da Igreja Romana já tinha escrito um capítulo na história das sociedades secretas: os jesuítas. A Companhia de Jesus, como é chamada até hoje, foi fundada em 1534 por 6 estudantes da Universidade de Paris. O líder era Inácio de Loyola, canonizado em 1622. Foi ele quem redigiu a constituição da companhia, disciplinando e organizando aquela que se transformaria numa das maiores ordens religiosas da história.



Íntimos do poder – responsáveis até pela educação de reis e rainhas –, os jesuítas estiveram na linha de frente de um dos grandes movimentos de expansão do catolicismo: a evangelização do Extremo Oriente, da África e das Américas no século 16. Até ser extinta pelo papa Clemente 14, em 1773, a ordem já teria arrebanhado milhões de novos adeptos. Em 1814, a Companhia de Jesus foi restaurada por decreto do sumo pontífice Pio 7º.



REVOLUÇÃO E INDEPENDÊNCIA



Quando: Séculos 18 e 19



Quem: Maçonaria



Na Revolução Americana, em 1776, a maçonaria foi decisiva. Dos 5 homens que redigiram a declaração de independência em relação ao Império Britânico, dois eram maçons: Benjamim Franklin e Robert Livingston. O documento, depois de redigido, foi submetido ao Congresso americano, que também tinha vários integrantes da maçonaria entre seus membros. O mais famoso era George Washington – que, mais tarde, seria eleito o primeiro presidente dos EUA.



Apenas 13 anos depois, em 1789, maçons estariam envolvidos em mais uma revolução, a francesa – embora não existam provas de que eles tenham desempenhado papéis tão relevantes quanto nos EUA. E finalmente, em 1822, a sociedade secreta também deixaria suas marcas na independência do Brasil. Até dom Pedro 1º pertencia à maçonaria, além de José Bonifácio e outros personagens importantes no processo de emancipação do Brasil (leia mais na pág. 16).



ATAQUES DO 11 DE SETEMBRO



Quando: 2001



Quem: Al Qaeda



Depois dos atentados terroristas do 11 de Setembro, o mundo nunca mais foi o mesmo. Assumidos por uma sociedade secreta, a Al Qaeda, eles marcaram o início de um ciclo de violência que está em curso até hoje. A vida de milhões de pessoas foi afetada pelos desdobramentos, de pastores de cabra no Afeganistão a fundamentalistas no Iraque; dos mortos e feridos em atentados posteriores, como os de Bali (2002), Madri (2004) e Londres (2005), a você, que agora sofre horrores para tirar um simples visto de entrada nos EUA.



O choque de dois aviões seqüestrados pela Al Qaeda contra as Torres Gêmeas rendeu algumas das imagens mais assustadoras e dramáticas da história. Somadas as vítimas de Nova York, da aeronave lançada contra o Pentágono e do avião que caiu na Pensilvânia, mais de 3 mil pessoas morreram – o pior ataque já sofrido pelos americanos dentro de suas próprias fronteiras.



ELEIÇÃO DO PAPA BENTO 16



Quando: 2005



Quem: Opus Dei



Ultraconservadora e secreta, habituada a trabalhar nos bastidores da Igreja Católica. É assim que muitos especialistas resumem o Opus Dei, uma organização religiosa fundada pelo espanhol Josemaría Escrivá em 1928. Hoje, ela tem integrantes ocupando cadeiras em vários Parlamentos e postos importantes em mais de 470 universidades, 600 jornais e 50 cadeias de rádio e TV, nos 5 continentes. Tornou-se tão poderosa que sua influência dentro do Vaticano foi determinante na eleição do papa Bento 16 – outro baluarte do conservadorismo.



O processo de canonização extraordinariamente rápido de Escrivá é apontado como um dos indicadores do poder exercido pelo Opus Dei. O fundador do grupo virou santo em 2002, apenas 27 anos depois de sua morte. Compare esse caso com a canonização do paulista Frei Galvão, o primeiro santo brasileiro. Ele morreu em 1822 e só foi santificado pelo Vaticano 185 anos mais tarde, em 2007.





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